quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

AINDA ONTEM...!


                                                                  AINDA ONTEM...!

 

AINDA ONTEM eu clamava por mais justiça. Hoje sei que também tenho que lutar mais por ela!

AINDA ONTEM eu caminhava em dúvidas. Hoje sei que elas se transformam em certezas quando caminho na direção correta!

AINDA ONTEM eu olhava para o infinito buscando algo. Hoje sei que o encontro deste algo são nossos objetivos que alcançamos!

AINDA ONTEM eu amava muito. Hoje sei que amo mais ainda!

AINDA ONTEM minhas palavras buscavam mais sentidos. Hoje elas me respondem que preciso de mais palavras!

AINDA ONTEM eu queria ser mais forte. Hoje sei que minhas fraquezas são necessárias para me fortificar!

AINDA ONTEM eu pensava mais no futuro. Hoje reconheço que ele depende dos nossos passos no presente!

AINDA ONTEM queria mais humildade em tudo que faço. Hoje acredito que preciso ser mais humilde para encontrá-la!

AINDA ONTEM eu só buscava vitórias. Hoje aprendi que são as derrotas que nos fazem crescer e vencer!

AINDA ONTEM meus olhos buscavam uma imagem da verdadeira beleza. Hoje sei que ela está em cada um de nós!

AINDA ONTEM queria me apaixonar mais por ti. Hoje acredito que esta paixão não pode ser medida!

AINDA ONTEM implorava ao meu coração que batesse só por ti. Hoje sei que ele é todo seu!

AINDA ONTEM o perfume do seu jardim era incomparável. Hoje sinto que nada a ele se compara!

AINDA ONTEM queria ser mais sensível aos sofrimentos do mundo. Hoje percebo que a minha sensibilidade depende também dos meus atos!

AINDA ONTEM eu queria paz para a humanidade. Hoje sei que ela depende da humildade de todos!

AINDA ONTEM eu olhava para o vazio. Hoje meus olhos são para a eternidade!

AINDA ONTEM buscava mais felicidade. Hoje tenho a certeza que sempre fui mais feliz!

AINDA ONTEM o que eu era? Hoje sei realmente o que sou!

AINDA ONTEM estava sempre a me perturbar. Hoje sei que é a injustiça e a violência que me perturbam!

AINDA ONTEM... AINDA ONTEM? Já vivi tudo é passado. Hoje... Hoje? Sei que o meu caminho é seguir em frente, e amar sempre!

QUE DEUS ABENÇOE A TODOS!

 

AILTON JOSÉ FERREIRA

Membro da Academia de Letras de Pará de Minas – Cadeira nº 07.

Policial civil aposentado, Bel. Direito, Pedagogo, Escritor e Educador.

ailtonferreira_assepam@yahoo.com.br

BLOG: cms.literaturaparademinas.webnode.com

Livros para reciclagem



            Quando eu era bem jovem, devia ter uns quatorze anos, assisti ao filme: “O Diário de Anne Frank”.  Curiosamente era essa a idade da protagonista. Naquela época, eu passava uns dias com os meus pais, na casa de uns parentes no Rio de Janeiro e não sabia nada sobre esse diário. Fiquei chocada com o triste fim daquelas pessoas que ficaram escondidas durante tanto tempo, cheias de esperança de que a guerra acabasse e pudessem enfim, saírem seguras dali. Aquele filme me marcou bastante por se tratar de uma história verdadeira e, por isso, sempre voltava às minhas lembranças.

            O tempo passou e, eis que um livro com este título, chegou às mãos de meu irmão e ele o leu. Gostaria de destacar a forma que esse livro chegou até ele. Enquanto aguardava pelo conserto de sua caminhonete, viu ao lado da oficina um depósito de sucata. Como estava sem ter o que fazer deu uma olhadinha nesse cômodo e, para sua surpresa, havia uma prateleira com várias pilhas de livros. Ele se aproximou e com espanto viu obras de autores famosos, bem encadernadas e em ótimo estado. Foi até ao mecânico e quis saber a razão daqueles livros estarem ali. Ele disse: “Tudo isso é para ser reciclado, mas temos o costume de separar os livros do restante por que se alguém se interessar, vendemos por oito reais o quilo”. Meu irmão não pensou duas vezes e já foi separando as preciosidades que ele havia descoberto.

            Destaco aqui uma coisa que me deixou triste. Ali no meio havia vários livros de escritores de Pará de Minas. Fiquei pensando, é tão difícil para uma pessoa publicar um livro. É um processo demorado, trabalhoso e, no final, descobrir o destino que alguns deles terão...

            Meu irmão não conseguia entender como as pessoas descartavam os livros daquela forma. Como tinham coragem de mandar para a destruição a preciosidade de um livro. Falei que achava que os donos eram pessoas que faleciam e a família se livrava das suas coisas daquele jeito. Pensando bem, era bem melhor aproveitá-los na reciclagem que queimá-los como acredito que muitos herdeiros fazem. Mas ele ainda continuava buscando respostas para tamanho despropósito e dizia: “Mas como esse falecido não conseguiu passar para os descendentes o gosto pela leitura?” Nessa hora fiquei sem resposta. Eu não consigo entender também. Será que essas pessoas não pensaram em doá-los para alguma biblioteca? Acredito que muitas aceitariam de bom grado.  

            Pois bem, meu irmão pegou o “O diário de Anne Frank” e me aconselhou a lê-lo. Falei que não queria, pois conhecia o filme, mas ele insistiu de uma maneira bem convincente. Disse que o lera e tinha certeza de que eu ia gostar muito, explicou que ficara impressionado com o talento literário de Anne, com a sua visão cheia de maturidade diante da vida, com a capacidade de percepção que ela tinha do íntimo do ser humano. 

            Segundo a crítica literária e ensaísta Francine Prose, “Anne era de fato talentosa, como se vê por sua habilidosa construção de diálogos e personagens, seu olho para os detalhes, seu domínio do ritmo da narrativa”.

            Levei o livro para casa e o li. Pude constatar tudo o que meu irmão disse. Mais uma vez ficou confirmado para mim a superioridade da palavra escrita. Em um filme não é possível mostrar toda preciosidade que um texto contém. Por isso costumamos nos decepcionar quando conhecemos uma obra e a vemos representada. Mas por outro lado, as imagens se fixam melhor nas nossas mentes. Acho que o melhor seria conhecer a obra, o filme e tirar as nossas conclusões.

Déa Miranda
Cadeira nº 11
Patrono: José Gastão Machado

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013


                                                             O ESTAFETA.

Há dias, conversava com alguns companheiros de Academia e em dado momento fiz um comentário, mais precisamente uma referência, sobre a figura do Estafeta. Então me disseram que eu havia tirado esta palavra do fundo do baú da vovó, pois, palavra e profissão praticamente estão esquecidas do mundo atual; aí tive a ideia de escrever sobre estes desbravadores e corajosos seres humanos que não mediram esforços e expuseram a própria vida para levar a comunicação pelo mundo a fora durante milhares de anos e que agora a tecnologia o faz com uma velocidade às vezes ‘incalculável’.

Pois bem, o que seria então o Estafeta? Segundo os dicionários: entregador de telegramas, cartas e mensagens, ou seja, mensageiro, carteiro. Quantos estafetas percorreram quilômetros e quilômetros interligando as regiões para que as comunicações entre os povos tivessem êxitos, e, quantos deles, para não dizermos centenas ou até mesmo milhares, perderam suas vidas pela coragem de tentarem concretizar o seu trabalho. No início durante muito tempo fizeram o serviço a pé, com o tempo foram introduzidos os animais, principalmente o cavalo, até chegar aos meios de transportes sobre rodas: as carroças, as diligências como no velho oeste americano e depois os veículos, navios e aviões. Porém isto tudo não tira a glória com que os primeiros carteiros do mundo tivessem um papel importante na comunicação entre as sociedades humanas. Foram eles sim que com a sua coragem, sem medir os perigos que iriam enfrentar ou mesmo se iriam retornar para seus lares, que contribuíram para que o desenvolvimento da raça humana através do intercâmbio de informações fosse mais rápido.

Para não dizermos que algumas sociedades atuais nos lugares mais remotos do nosso mundo atual ainda devem utilizar o papel do estafeta, em nossa própria sociedade controlada hoje pela tecnologia, temos ainda a figura do estafeta, ou seja, o carteiro que caminha às vezes até quilômetros diariamente para entregar de casa em casa as correspondências, e que ainda não tem uma opção melhor. Que contraste! Numa sociedade em que vivemos na velocidade da tecnologia em que recebemos informações do outro lado do mundo em questão de segundos, precisamos do estafeta atual para receber nossas correspondências. Este é um sinal imprescindível de que o ser humano ainda é indispensável fisicamente. E obrigado aos meus companheiros acadêmicos Valmir José, José Roberto e Marcio Simeone que fizeram me lembrar de uma figura importante da História.

QUE DEUS ABENÇOE A TODOS!

Ailton José Ferreira

Policial civil aposentado, Bel. Direito, Pedagogo, Escritor e Educador.

Membro da Academia de Letras de Pará de Minas (Cadeira nº 07).

ailtonferreira_assepam@yahoo.com.br

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A Morte em três atos

Joandre O. Melo
Cadeira nº 20
A Morte em três atos:

1º ato: A Morte, à surdina, caminha ao meu lado e não sei quando ela vai me beijar. Durante o caminho algumas vezes posso senti-la a murmurar suavemente, mas eu não sei quando ela virá.

2º ato: A Morte caminha ao meu lado e na próxima esquina beijar-me-á, não estarei pronto ao teu beijo, mas não posso recusá-lo. Certamente ela estará com sua mais bela roupa (cetim), então, beijar-me-á com tenebrosa lascívia . Sentirei o gosto da tua amargura, a dor lancinante da tua profunda melancolia. Não há outro caminho a não ser render-me àquele hálito frio, cadaveroso, pusilânime, pois, nunca foi nada senão o fim, a degeneração de tudo...

3º ato: Morte! Afavelmente entrego-me ao teu beijo, escuto e obedeço o teu chamado. Entrego-me a ti, à putrefação, ao ventre da terra para onde conduzir-me-ás; a alimentar teus servos fiéis: os vermes. No afã da coroação desta ignóbil existência entrego-me aos teus servos (os vermes da terra) para que se deliciem com este manjar (meu corpo), agora inerte consumida sua energia vital, não sofro mais; Todavia, que teus servos, Morte, ao devorar meu coração saibam que nunca existiu um pedaço de carne que sofreu tanto em uma só existência.


Talvez


Joandre O. Melo
Cadeira: nº 20

Talvez, quando eu me aposentar eu realmente me torne um homem ou, pelo menos me aproxime do que seja um homem; do que ele pode ser, fazer e sentir. Por enquanto, sou apenas um pedaço de carne que anda, come, bebe, veste, faz sexo, ama, descansa, pensa. Enfim, apenas um pedaço de carne que vive para o sistema e que se consome em nome dele.
Talvez, eu não passe de gado; guiado pelas veredas que me levam a lugar nenhum. Pelo caminho, há apenas um pouco de palha para que eu possa comer e um pouco de água para beber. Vejo outros como eu. porém gordos; movem-se freneticamente, comem grama fresca; muita, muita grama e vegetais que eu nem conheço e bebem águas claras que deságuam de enormes e refrescantes cascastas. Olho para trás e vejo outros como eu ou, talvez, até em piores condições; corpos chupados, andar trôpego, talvez mais do que o meu. Quando conseguem um pouco de palha, comem. Água! Só o que sobra do resfetalar-se do gado gordo.
E assim caminho; cada dia, é um dia a menos. Eu penso comigo: graças a Deus, um dia a menos....
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(*) Ilustração feita por Joandre Oliveira Melo, três de janeiro de 2009. A intenção era mostrar um burrinho puxando uma carroça transbordando cenouras fresquinhas e um fazendeiro a guiar o burrinho com uma destas suculentas cenouras. Porém, o burrinho jamais comerá a cenoura e nunca saberá o peso que está carregando nas costas. É uma caricatura da visão que tenho do Capitalismo.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Semelhanças de fatos




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Li um texto de Rachel de Queiroz com o título “Ah, a vaidade literária!” e nele ela divaga, vai ao passado, lembrando fatos relacionados com o tema que ela escrevia. Outras vezes começava a desviar do assunto, narrando um fato de que havia se lembrado. Pouco depois voltava ao tema dizendo: “Mas estávamos falando em escrever..” e com a maestria tão própria dela tudo caminha de uma maneira agradável, que prende o leitor o tempo todo. É como se ela estivesse a nossa frente conversando e muitas vezes parece até que fazemos parte da conversa, pois ela usa a primeira pessoa do plural, como no último trecho citado.

 Nesta prosa boa, senti-me numa das noites de inverno lá da fazenda, reunida com todas as pessoas da casa na beirada do fogareiro, que era um recipiente de metal com formato arredondado e se sustentava em três pés. Nele se colocavam brasas para aquecer as pessoas. Ali a conversa era anacrônica, ia ao passado e voltava ao presente com a maior agilidade. Nós, crianças, muitas vezes sem conhecer os personagens, nos envolvíamos com as histórias.        

Numa dessas divagações, Rachel se lembra do cargo que existia nos tempos idos e que se chamava “secretário de jornal”. Era, como ela disse, muito mais temível que o próprio dono do jornal.  Todos os textos tinham de passar pela sua correção e, pelo que ela narra, a caneta dele funcionava como uma temível censura. O que ele riscasse não tinha mais salvação. Ninguém poderia questioná-lo. E ela narra: “ Me lembro de certa vez, quando colaborava no findo Correio da Manhã, vi devolvida, riscada a lápis vermelho, uma frase iniciada por pronome oblíquo: Me parece... O papel me voltou rodeado por um círculo vermelho, como um sol de fogo. E quem o traçara fora o próprio secretário, o dr. Costa Rego em pessoa.  Meninas são atrevidas, e eu ousei replicar (em lápis azul) – Mas o Mário de Andrade escreve assim...” “A senhora não se chama Mário de Andrade. Corrija o texto.” “Com a mão de revolta, corrigi o texto para Parece-me. Acho que foi neste dia que se agravou o meu surto comunista.”

            Ao ler isso, lembrei-me de um caso semelhante acontecido comigo. A minha professora corrigiu uma vírgula mal colocada num texto que eu escrevera. Falei com ela que eu achava que nem sempre as vírgulas deveriam seguir as regras. Que a pessoa que  escrevia deveria ter a liberdade de colocar a pausa onde bem entendesse, e completei: “A Clarisse Lispector determinava o lugar que ela queria e não admitia que o editor de seus livros mudasse ou suprimisse uma vírgula. Dizia que somente ela sabia onde era necessário dar uma pausa”. Ela olhou-me, deu uma risadinha e falou: “Você não é a Clarice Lispector!” Respondi: “ Mas seria muito bom se eu pudesse ter pelo menos um pouco da liberdade que ela tinha.”

            Admito ter dúvidas até hoje do correto emprego de vírgulas. O professor Pedro Moreira é incansável na luta de me mostrar as razões que justificam a sua posição. Quando levo textos para ele corrigir, sempre me dá pacientes explicações. Às vezes coloco o raminho no lugar onde não é necessário e, em outras, eu não o coloco onde é indispensável. O termo raminho é correto. Foi ele quem me disse que vírgula, em latim, tem esse significado. Não acho que seja tão grave um raminho a mais ou a menos ou fora do lugar. Creio que seria pior se o erro fosse na colocação das aspas, pois de acordo com ele, aspas, em suas origens, significam chifres. Imagine que grave seria colocar chifres em lugares errados. Aliás os chifres hoje não são admitidos nem onde eles são originários. Os fazendeiros mocham o gado e fogem das moscas-de-chifre.

Mas a verdade é que preciso aprender, sim, pois necessito das vírgulas o tempo todo e, como não sou a Clarice Lispector, tenho que me submeter às imposições da gramática.

Déa Miranda
Cadeira nº11
Patrono: José Gastão Machado